Mês: setembro 2018

Entendendo as emoções negativas: a vergonha

A vergonha é incorporada ao nosso corpo com base nas experiências tidas com as outras pessoas, como os nossos pais ou responsáveis pelos nossos cuidados, além de parentes, amigos e professores. A vergonha tem significância moral, social e, sobretudo, evolutiva, visto favorecer a integridade dos grupos humanos, ajudando-os a aumentarem o seu índice de sobrevivência, já que, quando unidos, vivemos vidas longevas e saudáveis. Enquanto comportamentos tais como: altruísmo, empatia, compartilhar, colaboração e tratar-se bem favorecem a qualidade dos relacionamentos; ao passo que agir de maneira narcisista, egoísta, agressiva e antissocial ameaça a nossa união. Felizmente, a vergonha é uma emoção que existe para regular tais comportamentos a fim de prevalecer os interesses do grupo. Por essa razão, a vergonha representa uma espécie de “punição emocional” por não ter se respeitado a integridade e a harmonia de um grupo, ou as regras que nos fazem identificar uns com os outros e trabalhar em cooperação.

Entendendo as emoções negativas: a vergonha
A vergonha é como uma “punição emocional” por não se respeitar a integridade e a harmonia de um grupo

O papel da vergonha

Como já sabemos, a vergonha nos adverte quando quebramos as regras compartilhadas por um determinado grupo. Como esses valores ou conjuntos de regras sociais variam de acordo com o contexto cultural, o que é vergonhoso para um determinado grupo pode ser aceitável para outro. Enquanto a culpa nos avisa que fizemos algo errado, a vergonha aponta o dedo diretamente para nós, como se fôssemos errados. Portanto, a vergonha tem o potencial de se tornar extremamente tóxica para a autoestima, pois nos faz sentirmo-nos rejeitados e, até, fracassados. Além disso, uma vez que a vergonha é uma emoção “aprendida” corre o risco de se tornar um mecanismo de autossabotagem internalizado ou um mau hábito emocional, através do qual nós constantemente criticamos e julgamos a nós mesmos. Quando isso ocorre, sentimo-nos vulneráveis ​​e isolamo-nos dos outros.

Sentimentos relacionados à vergonha

O embaraço, a inadequação e o arrependimento, bem como sentir-se inútil, mortificado ou desonrado são sentimentos originados da vergonha (caso necessite de ajuda para identificar demais sentimentos de vergonha, favor clicar aqui).

Como a vergonha é sentida no corpo

Curiosamente, a vergonha, como um “sentimento moral” (Michel et al., 2014) é desencadeada pelas áreas frontal, temporal e límbica do cérebro (ligadas ao pensamento racional, à aprendizagem, ao medo e à sobrevivência, respectivamente). Como pode se observar a seguir, as sensações corporais associadas à vergonha nos preparam para nos desconectarmos, evitarmos e até nos escondermos do outro:

  • Corpo pesado: cabeça, tronco, pernas e braços
  • Batimento cardíaco acelerado
  • Ombros caídos
  • Pelve curvada
  • Olhos descaídos
  • Inércia, falta de movimento
  • Rubor no rosto

Vergonha adaptativa e mal-adaptativa

Visto que valorizamos o sentimento de pertencer a um grupo, a vergonha adaptativa nos auxilia a não agir contra os nossos interesses, como prejudicar os relacionamentos que valorizamos. Isto se aplica aos nossos objetivos e nossas conquistas. A vergonha que o faz sentir-se inadequado quando um amigo o flagra assistindo TV no meio da tarde, quando havia planejado estudar para um exame, por exemplo, ajuda-o a se concentrar no que é importante para si a longo prazo (melhores qualificações e oportunidades de emprego etc.). Em tais contextos, a vergonha é adaptativa porque favorece a obtenção de metas e o bem-estar psicológico. Nesse cenário, a vergonha não é o único agente motivador, mas surge em contextos específicos para relembrar um indivíduo confiante e responsável de escolher os comportamentos que correspondem aos seus objetivos. A vergonha mal-adaptativa, no entanto, não contribui para o crescimento pessoal e profissional, graciosamente, mas tem um efeito duradouro, prejudicial e autodestrutivo. Quando o comportamento é ditado pela vergonha, danos incríveis são causados ​​à identidade e autoestima, o que cria uma grande distância entre nós e a nossa essência. A vergonha mal-adaptativa é considerada a mais tóxica das emoções, já que o seu efeito é extremamente debilitante para a nossa capacidade de nos conectarmos não apenas conosco, como também com as outras pessoas, tornando impossível sentirmos satisfação e um senso real de amor e alegria pela vida.

O que a sua vergonha diz sobre você

Essencialmente, a vergonha lhe comunica quando há algo supostamente errado com o seu jeito de ser ou comportar-se. Quando você se relaciona com a vergonha de uma maneira funcional – ouvindo a sua mensagem de uma perspectiva equilibrada – registra o que precisa dela (se alguma coisa) e usa esta informação para centrar-se, ou alcançar um melhor estado de realinhamento entre os seus valores e a sua verdadeira identidade. Nestas circunstâncias, age com autoestima e cresce com a experiência. Essa atitude pragmática em relação à vergonha e a sua capacidade de julgá-la e regulá-la reflete um alto nível de autoconsciência, respeito e amor-próprio. A vergonha que não pode ser lidada de tal forma, contudo, e reverbera internamente com as crenças centrais negativas, tais como: “Eu não sou bom o suficiente” ou “Eu não dou conta” ou “Não presto pra nada”, permanece por mais tempo do que o necessário para criar um senso saudável de autoconsciência. Nesse caso, o seu objetivo não é informá-lo e ajudá-lo a redirecionar o foco ao que promove o bem-estar e desenvolvimento, mas humilhá-lo. Os sentimentos recorrentes de vergonha tóxica são, frequentemente, um sinal de que você precisa cuidar melhor de si, emocional e psicologicamente.

Devido ao seu efeito nocivo sobre a psique e o corpo, a vergonha tóxica está ligada a uma série de problemas de saúde mental, como o trauma do desenvolvimento não resolvido, os transtornos de personalidade, ansiedade e humor, entre outros. Se você não estiver satisfeito com o relacionamento que mantém com a vergonha ou com a sua capacidade de controlá-la, recomendo procurar a ajuda de um profissional da saúde mental. Encarar a sua vergonha, com energia e coragem, é a melhor estratégia para enfraquecê-la e melhorar a sua autoestima.

Referência:

Michl P., Meindl T., Meister F., Born C., Engel R.R., Reiser, M., Hennig-Fast K. (2014). Neurobiological underpinnings of shame and guilt: a pilot fMRI study. Social Cognitive and Affective Neuroscience 9(2): 150–157. http://dx. doi: 10.1093/scan/nss114