Categoria: <span>Desesperança</span>

O luto das perdas de 2020

O luto das perdas de 2020
Quando não processamos as perdas significativas, temos dificuldades de seguir em frente

A maioria de nós concorda que 2020 foi um ano difícil, alguns expressam o seu descontentamento de forma ainda mais enfática e afirmam que foi “um ano terrível” ou “o pior de todos”. Referir ao ano que passou de forma tão negativa, inevitavelmente, desemboca em grandes expectativas para 2021, apesar de não haver garantias que as mudanças que aguardamos, ansiosamente, vão se concretizar tão cedo quanto gostaríamos. Portanto, é valido questionarmo-nos se estamos emocionalmente preparados para aceitar as circunstâncias atuais de uma maneira mais paciente e centrada.

Para a maioria, a resposta é não, já que ainda não fez o luto das perdas de 2020. Isso se deve ao fato de que, quando não processamos as perdas significativas, temos dificuldades de seguir em frente. Se o conceito de fazer o luto das perdas do ano passado parece-lhe demasiado abstrato, imagine 2020 como um evento que representa uma grande mudança na sua vida, como ir morar com alguém que ama. Antes da mudança, planejam tudo juntos, com muito entusiasmo, visualizando um lugar lindo e aconchegante que criarão. Além disso, veem-se alegres recebendo amigos para jantar e divertindo-se em diversas ocasiões. Enquanto se preparam para a grande mudança, contudo, um de vocês perde o emprego e o outro é diagnosticado com uma doença grave, sendo forçados a interromper todo o processo e, o que é pior, sem ter qualquer previsão de quando as coisas vão melhorar ou se algum dia conseguirão realizar esse sonho.

Tais perdas nos deixam tristes e muito zangados. Como fomos criados em uma cultura de negligência emocional, entretanto, nenhuma dessas emoções são abordadas e lidadas de maneira saudável, raramente isso ocorre. Apesar de não nos conectarmos com estas e as processarmos adequadamente, somos capazes de senti-las. Embora a fobia emocional seja tão prevalente, a tristeza e a raiva que carregamos permanecem armazenadas no corpo, o que tende a prejudicar não apenas a saúde emocional, mas, também, a física. No âmbito dos relacionamentos, a insatisfação com a vida e a raiva acumulada tendem a ser projetadas no outro, um processo altamente inconsciente que também o prejudica.

Portanto, se deseja encarar 2021 com uma atitude renovada e proteger a saúde dos relacionamentos, recomendo processar o luto pelas perdas de 2020, tais como as oportunidades perdidas de mover-se e interagir com as outras pessoas livremente, viajar, socializar com os amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos, namorar, conhecer novas pessoas e fazer novos amigos, encontrar um novo emprego, mudar de residência, assim como todas as outras atividades e eventos que colorem a nossa existência. Se precisar de ajuda para processar qualquer tipo de perda, sugiro a leitura dos seguintes artigos:

Como processar a dor emocional

5 técnicas de autorrelaxamento para o processamento do luto de forma saudável

Para uma cura saudável: que tipos de perda podem causar o luto?

tipos de perda podem causar o luto
A consciência de eventos traumáticos e seus efeitos pode causar o luto

A nossa capacidade de lidar e superar perdas depende grandemente da nossa disposição de tolerar e aceitar o luto. Visto que pertencemos a uma cultura de negligência emocional, este tende a ser ignorado, reprimido ou rejeitado a depender do contexto em que surge. Contudo, o luto é um processo de cura biológica resultante de qualquer tipo de perda, quanto mais profundo o nosso entendimento de “perda” melhor a consciência da necessidade de vivenciar o luto. Para atravessá-lo e expandir o conhecimento sobre o seu significado de forma saudável, elencam-se 16 tipos de perda, além do estereótipo que podem causar o luto:

  • Mudança de residência, cidade ou país
  • Perda de uma parte ou mais do corpo, seja por acidente ou cirurgia por motivos de saúde
  • Fim de relacionamento amoroso
  • Fim de amizade
  • Morte de familiar, animal de estimação, colega, vizinho e/ou conhecido
  • Perda de bens materiais que afetam a qualidade de vida
  • Perda de poder para tomar decisões ou de autonomia
  • Mudança profissional como promoção, rebaixamento, demissão ou aposentadoria
  • Percepção da falta ou inexistência de, pelo menos, uma fonte de apoio emocional, financeiro e/ou social
  • Perda de autoestima, seja devido a eventos traumáticos (abuso, negligência) ou mudança significativa nas circunstâncias de vida (acadêmica, profissional e/ou social/relacional)
  • Perda de identidade, seja por meio de mudanças de ordem psicológica, emocional e/ou física
  • Perda de dinheiro ou mudança na situação financeira
  • Consciência de eventos traumáticos e seus efeitos
  • Corte de contato com, pelo menos, um membro da família ou pessoas significativas
  • Mudança radical na rotina de vida, como as vivenciadas durante a pandemia Covid-19
  • Mudança na condição de saúde, como o diagnóstico de uma doença crônica

Como a verdadeira cura de perdas como as mencionadas tende a não se materializar sem um luto consciente e saudável, mudar a maneira como se vê e vivencia o luto é um elemento chave para processá-lo de modo pleno. Mesmo quando as pessoas ao seu redor não são capazes de entender a sua necessidade de condoer-se, conceda a si mesmo o direito de viver o luto. Confie no corpo como um guia sábio para se conectar com os sentimentos dolorosos, tais como: raiva, vergonha, culpa e tristeza e receba-os de forma autônoma e sem julgamento.

3 crenças rígidas sobre namoro e relacionamentos prejudiciais à sua vida amorosa

3 crenças rígidas sobre namoro e relacionamentos prejudiciais à sua vida amorosa
Quando sofremos os efeitos de qualquer tipo de trauma do relacionamento, começamos a ver a nós, ao mundo e as outras pessoas através de uma lente demasiado negativa e tendenciosa.

Quem tem um histórico de trauma relacional com frequência enfrenta ou enfrentou dificuldades para ter uma vida amorosa rica e gratificante. Isso ocorre porque o trauma relacional é um dos mais dolorosos e difíceis de superar. Quando sofremos os efeitos de qualquer tipo de trauma do relacionamento, começamos a ver a nós, ao mundo e as outras pessoas através de uma lente demasiado negativa e tendenciosa. O cérebro traumatizado e, portanto, superprotetor, tem o potencial de prejudicar ou mesmo destruir a nossa capacidade de encontrar satisfação na vida por meio dos relacionamentos amorosos. Para ficar ciente a respeito dos pensamentos disfuncionais que podem estar por trás do seu descontentamento, elencam-se 3 crenças rígidas prejudiciais a sua vida amorosa:

1- Preciso me sentir cem por cento confiante e centrado para começar a namorar novamente

Essa é uma das crenças perfeccionistas mais comuns e, embora seja idealista e incoerente com a natureza humana, desemboca em solidão e insatisfação com a vida. Como seres sociais que foram criados para a conexão, o nosso caminho de cura é através desta e não de sua evasão. Ninguém é cem por cento ou perfeito em nada, especialmente quando se trata de relacionamentos. Todos aprendemos juntos e uns com os outros, assim como com o tempo e a experiência.

2- Não posso ser magoado novamente

Se é isso que repete para si próprio quando pensa em namorar novamente, sofre de fobia emocional – ou um grande medo de emoções como a tristeza, raiva e vergonha, por exemplo, além de sentimentos de rejeição e abandono. Somos equipados para lidar com as emoções dolorosas e superar a nossa dor, portanto, sim, você pode suportar a dor, superar um relacionamento que não deu certo e tentar novamente com um match melhor.

3- Se eu quiser me envolver romanticamente de novo, o relacionamento tem que dar certo

Aprendemos, essencialmente, através da experiência e de tentativa e erro, se você se impede de tentar devido ao medo de “falhar” e não ser correspondido, a sua vida amorosa sofrerá como resultado. Como nas esferas profissional e acadêmica, o sucesso em sua vida amorosa requer prática – o que realmente promove o conhecimento e mudança – e não a inércia.

Se se identificou com o exposto, pare de desperdiçar o tempo precioso e comece a questionar os pensamentos negativos prejudiciais a sua vida amorosa. Ao aceitar as imperfeições com coragem e tolerância, todas as suas partes, você se torna emocionalmente maduro e preparado para desenvolver um relacionamento verdadeiro.

Como se conectar com as emoções negativas: a tristeza

Mesmo que provenha de um ambiente familiar de negligência emocional, não significa que não possa ter um relacionamento saudável com as suas emoções na idade adulta. Quando aborda as emoções com maturidade, tornam-se uma expressão natural da sua humanidade e não uma manifestação de uma “patologia” ou inconveniência que tem de ser tratada, medicada ou controlada. As emoções revelam muito sobre nós, o momento em que vivemos e como certos eventos e indivíduos nos afetam, são, portanto, uma grande fonte de autoconhecimento. Além disso, a autorregulação não se materializa sem a conexão emocional, independente de quanto você tente evitar as emoções ou negar a sua presença, já que tendem a permanecer consigo até que lhes dê a atenção necessária para serem processadas de forma integral. Para ajudá-lo a tornar-se um amigo das emoções negativas e aumentar a sua capacidade de autorrelaxamento, os próximos artigos apresentarão algumas técnicas básicas de como construir um relacionamento aberto com a tristeza, raiva e o medo. Abaixo, você encontrará 5 dicas simples sobre como se conectar com a tristeza:

Como se conectar com as emoções negativas: a tristeza
A tristeza relembrar-nos do que está faltando em nossas vidas e o importante para nós

1- Aumente a autoconsciência

Se não sabe como está se sentindo no aqui e agora, não conseguirá se conectar com as suas emoções, sejam positivas ou negativas. Por essa razão, é vital que crie o hábito de verificar, regularmente, como se sente. De tempos em tempos e durante o seu dia, ou quando detectar algum tipo de desconforto emocional, pergunte-se, “Como estou me sentindo?” Logo após ter identificado que se sente triste, parta para o próximo passo, descrito a seguir.

2- Faça uma pausa e concentre-se em si

Após perceber a tristeza, vá para um lugar calmo e privado para se conectar de corpo e alma com esse sentimento e direcione o foco para o seu mundo interior, o que está passando pela sua mente e nas sensações corporais. Neste estado mindful ou de extrema consciência, não há nada mais urgente e relevante do que o momento presente. Sinta por um determinado período ou até conseguir estabelecer um canal aberto de comunicação com o próprio corpo.

3- Ouça o seu corpo

O que o seu corpo diz acerca de seu estado emocional atual? Você está se sentindo enérgico, socialmente engajado e motivado, ou letárgico e querendo ficar só ou, até, isolar-se dos outros? Você está prestes a chorar ou sente uma pressão/tensão no peito e/ou na área da garganta? Há uma sensação de peso em seus membros e corpo? Conectar-se livremente com essas sensações físicas, ou ouvir o próprio corpo, abrirá os canais de comunicação com a sua tristeza.

4- Registre a mensagem da tristeza

Agora que acessou a sua tristeza, o que esta lhe comunica? Um dos principais papéis da tristeza é o luto de nossas perdas e relembrar-nos do que está faltando em nossas vidas e o importante para nós. Do que sente falta? De um senso de propósito, do seu próprio eu ou da companhia das outras pessoas? Ou será que sente falta de alguém, um sentimento ou tempo bom do seu passado, ou algo que nunca desfrutou plenamente, como um verdadeiro amor ou senso de comunidade?

5- Deixe as lágrimas fluírem

A maneira mais rápida e eficaz de processar a tristeza é através de um bom choro. Quando sentir os seus olhos encherem-se de lágrimas, deixe-as fluir. Não as segure ou interrompa o seu fluxo, mas as deixe sozinhas encontrarem o caminho de saída do seu corpo e libertá-lo de sua dor no seu próprio tempo. Como as lágrimas emocionais contêm hormônios do estresse são um meio natural de regulação e restauração do equilíbrio emocional.

Como é o caso com todas as emoções “negativas”, tais como o medo e a raiva, conectar-se profundamente com a sua tristeza pode ser extremamente benéfico para a sua saúde emocional, psicológica e física. Em vez de lutar contra a tristeza, vá ao encontro dela e aprenda com ela, redirecionando o seu foco para o que você se identifica e faz com que se sinta bem. Se gostaria de viver uma vida mais plena, autêntica e feliz, é vital que substitua as crenças rígidas sobre a tristeza como algo a ser evitado ou reprimido e abra o corpo e a mente para a sua sabedoria e poder de cura.

4 razões pelas quais sentir pena de si mesmo ajuda você a crescer

A intolerância contra os sentimentos negativos é tão difundida que se aceita sentir pena dos outros, mas não de si mesmo. A crença que sustenta essa mentalidade rígida equivale sentir-se triste ou mesmo deprimido a um ato de se vitimar, como se a melancolia fosse apenas um meio de enganar os outros ou atrair a atenção para si. Aqueles que se identificam com essa perspectiva têm dificuldades de validar o seu próprio sofrimento, sobretudo, quando este persiste. Ao contrário da crença popular, evitar acessar, de verdade, a raiz do desconforto emocional não o faz desaparecer, mas tende a prolongá-lo desnecessariamente. Para ajudá-lo a abandonar a noção preconceituosa de que sentir e expressar a vulnerabilidade seja sempre um sinal de fraqueza, elencam-se 4 razões pelas quais sentir pena de si mesmo o ajuda a crescer:

1- Você se torna mais emocionalmente íntegro e consciente

4 razões pelas quais sentir pena de si mesmo ajuda você a crescer
Sentir pena de si mesmo pode funcionar como um alerta para implementar mudanças positivas

Quando você se permite sentir sem julgamento, naturalmente, torna-se mais consciente de seus estados emocionais. Aprender a viver em paz com os sentimentos, por sua vez, aumenta a congruência emocional, a autoconfiança e o poder da voz do seu eu autêntico. Como resultado, você se sente mais conectado com a própria mente, corpo e identidade e leva uma vida mais satisfatória e recompensadora.

2- Motiva-o a agir

Sentir pena de si mesmo pode funcionar como um alerta de que necessita implementar mudanças positivas em sua vida. Isso se deve ao fato de que a insatisfação e o desapontamento pessoal tendem a desembocar em um processo de intensa autoavaliação e reavaliação. Não há nada como chegar “ao fundo do poço” para motivar alguém a se adaptar a novas circunstâncias, reparar os relacionamentos e substituir maus hábitos por outros mais saudáveis.

3- Ajuda-o a melhorar a saúde emocional

O aumento da conscientização acerca dos sentimentos negativos permite que identifique o que está errado e faça algo a respeito. Tal como a dor física, o desconforto emocional avisa-nos de perigos potenciais ao nosso bem-estar. Quando você aborda a sua própria inadequação de uma maneira consciente, madura e sem se envergonhar e culpar a si mesmo, você se sente mais confiante e forte. A sua capacidade de lidar com o que está lhe incomodando de forma proativa – e até mesmo pedir ajuda, se necessário – aumenta, o que influencia positivamente a manutenção da sua saúde emocional.

4- Você se torna mais complacente e tolerante

A conotação extremamente tendenciosa de “sentir pena de si mesmo” reflete uma cultura de negligência e intolerância emocional. Julgar-se por sentir-se desanimado apenas promove o autodesprezo e uma atitude autocrítica. Quando passa a honrar todos os seus sentimentos, sem exceção, você não apenas se torna mais complacente e empático em relação a si mesmo, como também aos outros, conectando-se mais facilmente nos relacionamentos e tornando-os mais funcionais.

Não é humano sentir-se bem ou feliz o tempo todo, portanto, não é vergonhoso sentir pena de si quando dominado pela tristeza. Ninguém deve se sentir culpado por expressar as emoções negativas genuinamente sentidas. Se você gostaria de se sentir conectado e viver uma vida mais autêntica, talvez esteja na hora de abandonar o seu preconceito contra a expressão das emoções antagônicas, tais como o medo e a vergonha. Uma mentalidade “é oito ou oitenta”, erroneamente, pressupõe que se permitir sentir tristeza ou até mesmo chorar é um processo que se iniciado, “nunca tem fim”, mantém-lhe emocionalmente estagnado e dificulta o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Para combater essa tendência, comece a agir “como se” não se importasse com o que os outros pensam e ouse ser você, independente do que isso signifique.